quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Capítulo 13









Acordei naquele a que a minha mãe chamava de ''o melhor para ti neste momento''. Pensava repetidamente nas palavras '' caíste de propósito'' e ouvia o zumbido do riso cínico e irritante do rapaz que falava comigo. A minha cabeça estava um caos, um furacão. Palavras e possibilidades de desvandar o que o sinistro ser me havia dito vinham de toda a parte, as mais diferentes ideias inundavam a minha cabeça de histórias, em que o fim era sempre o mesmo, a minha morte.
- DOUTOR MARCELO!
Preocupado, entrou de rompante na sala onde me encontrava.
- O que se passa?!
- Eu... Eu tentei...?
- Oh meu Deus.
- RESPONDA-ME. Eu tentei matar-me?! Acabar com a minha vida?! Suicidar-me?!- lágrimas caíram da minha face.
- Menina Gonçalves, isto é um assunto delicado, vou chamar-lhe um colega meu com mais experiência nestes assuntos.- respondeu, hesitante.
- NÃO! RESPONDA-ME SÓ A ISSO, POR FAVOR.
- A minha resposta é sim.- saiu do quarto após isto.
Agarrei os meus cabelos com toda a minha força e sentei-me toda encolhida, balançando-me para a frente a para trás.
- Não, não, não, não, não, não... Não é possível... Eu, eu não seria capaz...
Com a cabeça entre os joelhos tentei acalmar-me. Mas logo os pensamentos sobre o porquê de o fazer se apoderaram de mim.
Entrou um estranho sujeito no espaço onde me encontrava.
- Boa tarde, sou o Dr. Jerónimo.
Levantei a cabeça e fitei-o.
- É o senhor o ''colega com mais experiência nestes assuntos''?
Deu uma gargalhada falsa e forçada.
- Sou sim, querida.
- O que quer?!
- Ajudá-la.
- Não preciso de ajuda.
- Precisa sim, passou por algo difícil.
- E quê? Você é um anjo da guarda?- praticamente cuspi as palavras.
Lançou-me um olhar malícioso e agarrou-me no braço.
- OUÇA O QUE EU LHE ESTOU A DIZER. NÃO SEJA INCONVENIENTE PORQUE EU ESTOU A TRATÁ-LA DEVIDAMENTE.
- Está bem! Mas largue-me!
- Muito melhor assim.- sorriu e deu-me uma pancadinhas amigáveis na cabeça.
Revirei os olhos e disse:
- Ouça, Dr. Jerónimo, como me pode ajudar?
- Eu sou psquiatra e como tal sei...
- O QUÊ? Psiquiatra? Acha que sou doida?!- revoltei-me.
- Não, nada disso. Mas tentou suicidar-se, isso é algo relevante numa adolescente com a sua idade, como pode compreender...
Encostei-me à cama.
- Eu sou normal. Não sei porque tentei fazer ''isso''.
- Ninguém sabe. Mas um dia você irá recuperar a sua memória e saberá.
- Como tentei fazê-lo?- inquiri, reticente.
- Comprimidos, tomou 70, veja lá. A sua sorte foi que 60 deles eram para dormir. Quando eles fizeram efeito você estava em pé e caiu, batendo com a cabeça.
'' MEU DEUS!'', o meu cérebro gritava, a cabeça doía-me, como se 1000 alfinetes estivessem a ser postos lá, comecei a ver tudo à volta rodar.
- Não me estou a sentir bem.
- Chamem a enfermeira!- gritou.
- O que se passa comigo?- falei por entre os dentes.
- Estás muito fraca.
Injetaram-me uma substância na veia e fiquei rapidamente melhor.
- Tem uma visita, Menina Andreia.- afirmou a simpática enfermeira, sorrindo.
- Quem é?- sorri também.
- André.
Mordi o lábio.
- Mande-o entrar, por favor.
Aqueles olhos verdes iluminaram, de imediato o quarto.
- A-andré...
- Ele é um falso, Deia, tens de acreditar em mim.
- Ai, eu nem sei em que acreditar. Tanta gente que se deve andar a aproveitar da minha inocência...
- Eu não, tu sabes. Vá lá, tu consegues lembrar-te, estavamos os dois na praia, tu estavas a reconfortar-me porque a minha namorada tinha-me traído com O JOEL! Abraçaste-me e disseste que podia contar sempre contigo, passados uns dias aconteceu-te a ti algo mau e eu nunca te deixei, passamos o dia juntos, de novo na praia, agradeceste-me por estar contigo, disseste que te faço sentir bem. Andreia, eu sei que é difícil, mas poça, estou a contar-te a verdade, tens de acreditar em mim!- lágrimas caíam enquanto ele falava.
Sem me conseguir segurar, chorei também. Memórias e imagens apareceram como do nada. Agora não havia skates ou ou colares partidos. Simplesmente duas pessoas abraçadas na praia, correndo uma atrás da outra, caíndo na areia e rindo às gargalhadas de aves que pairavam no ar. Essas duas pessoas eram claramente eu e o André.
- Eu lembro-me.- soluçando.
Chegou ao pé de mim e abraçou-me forte e eu algures dentro de mim reconheci esse abraço. Um abraço de melhor amigo.

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